Ainda tinha o bilhete da passagem
Outrora preso no espelho, quase a cair
Na janela, a já conhecida paisagem
Sem motivos para ficar, um para partir
E foi naquela manhã de verão
De terno velho e sapato justo
Cruzou o asfalto rumo à estação
Farol fechado e quase um susto
Quando chegou, faltavam dez
O bastante para o pão de queijo
E apenas para isso, sem café
O trem apitou. Adeus vilarejo!
Tumulto na porta e chapéu no chão
Nem gostava tanto, mas e o cabelo desajeitado?
Voltou para pegar, quase perdeu o vagão
Dividiu lugar com um senhor mau humorado
Por todo o caminho, nenhum som
O senhor de tanto reclamar era a exceção
Três horas mais tarde, um cheiro bom
Da terra querida, do antigo, da sua paixão
Apressou-se para não se atrasar
Parou na floricultura ali do lado
Era preciso, de mãos vazias não poderia estar
Queria presenteá-la para lembrar o passado
Ao abrir a carteira contemplou o retrato dela
Puxou a única nota que havia sem hesitar
Desejou o presente mais belo para ela
Mas comprou a flor que seu dinheiro podia pagar
Não tinha tempo para enfeitá-la, disparou!
Chegou no portão de ferro entreaberto
Ajeitou a gravata desbotada, entrou.
Algumas pessoas já haviam saído de perto
Esperou de longe até conseguir um lugar
Já estava só quando se aproximou
Nenhuma palavra, apenas um último olhar
Deixou a flor enterrar com seu único amor