quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sopro de Mal Estar***

Naquela direção
Todos os encantos,
Todo o perdão,
Caminharam em prantos

Quase sem sabor, nem calor
Um pouco mais sóbrio, talvez
Cabe o teu amor, meu amor
O sufoco óbvio que assim, o fez

Mas tão singela é essa dor
Um sopro de mal estar
que podes com ela navegar

Por mares tranquilos,
Por ondas serenas,
Num filme sem cenas

sábado, 11 de julho de 2009

A Última Flor***

Ainda tinha o bilhete da passagem
Outrora preso no espelho, quase a cair
Na janela, a já conhecida paisagem
Sem motivos para ficar, e um para partir

E foi naquela manhã de verão
De terno velho e sapato justo
Cruzou o asfalto rumo à estação
Farol fechado e quase um susto

Ao chegar, faltavam dez...
O bastante para o pão de queijo
E apenas para isso, sem café
O trem apitou. Adeus vilarejo!

Tumulto na porta e chapéu no chão
Nem gostava tanto, mas e o cabelo desajeitado?
Voltou para pegar, quase perdeu o vagão
Dividiu lugar com um senhor mau humorado

Por todo o caminho, nenhum som
O senhor de tanto reclamar era a exceção
Três horas mais tarde, um cheiro bom
Da terra querida, do antigo, da sua paixão!

Apressou-se para não se atrasar
Parou na banca de flores ao lado
Era preciso, de mãos vazias não poderia estar
Queria presenteá-la para lembrar o passado

Abriu a carteira, contemplou o retrato dela
Puxou a única nota que havia, sem hesitar.
Desejou o presente mais belo para sua bela
Mas comprou a flor que seu dinheiro podia pagar

Não tinha tempo para enfeitá-la. Disparou!
Chegou no portão de ferro entreaberto
Ajeitou a gravata desbotada. Entrou!
Algumas pessoas já haviam saído de perto

Esperou de longe até conseguir um lugar
Já estava só quando se aproximou
Nenhuma palavra, apenas um último olhar
Deixou a flor enterrar com seu único amor

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Toda a Prece***

Não se apresse,
Flutuar por aí não é sonhar
Abandone toda a prece
Trazer-te aqui, já é secar

Não dobre aquele papel,
Protega-o da chuva que vem
Nobre então, aquele anel
Que não mais, serviu a ninguém

A gente às vezes padece
E nem se quer encontrar
Quando embora parece,
vem com a fé se juntar

E no que há nesse céu
Sabe-se que nada vai além,
Consome um pouco desse meu fel
E no mais, acaba tudo bem

sexta-feira, 29 de maio de 2009

É de imaginar, adivinhar***

Já nem se sabe mais
o motivo da busca pela paz,
A inquietação pela rima perfeita
ou o desejo de que seja desfeita

Do início ao meio, tentou-se.
Parece-me mais um vício
daqueles que ninguem mais liga,
De trocar lágrima por colírio

E quando tudo desbota
até mesmo a cor mais vibrante
Tortuoso é o reconhecimento
Resta seguir firme e adiante

Sem paradas, sem vaidades
O horizonte que fala a canção
Atravessa as tantas cidades
coisas de dentro do coração

Nem mesmo um jogo de adivinhar
Criado apenas para não acabar
Silencia o querer de acertar
qual a palavra que se deve encontrar

Talvez não haja nada
Quem sabe cores atiradas ao vento?
Envelhecendo uma paisagem fotografada,
Formando-se o mais belo invento.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Um Sonho de Bom Dia***

Um bom dia nem sempre vem cedo
Quase nunca vem na aurora
Não precisa de sequer um enredo
Basta apenas uma trilha sonora

E a razão para um sorriso pela manhã?
Mentir, para outros descobrirem?
Sem nem saber se existirão no amanhã?
É para sorrir, sem os olhos abrirem

É quando se desperta antes de enxergar
Quando as nuvens ainda estão por perto
Emoldurando cada cena do olhar
Sem saber que não é preciso estar certo

Ainda que se ouça água caindo no telhado,
o som será de cachoeira que se quer encontrar
E se a batida na porta vier logo ao lado,
o som será dos passos de quem se quer abraçar

A decepção do despertar, deixe para outrora
Acorde apenas para o bom dia que se merece ter
Logo, a cachoeira revelar-se-á sem demora
No mesmo instante em que aquele abraço te envolver